
Se se fizessse uma taxonomia do público interessado pelo futebol de alta competição, os extremos ficariam ocupados pelos que se interessam por este espectáculo desportivo, os espectadores, e os que vivem uma cerimónia religiosa, os aficionados de uma cor clubista (os brasileiros chamam-lhes torcedores). Entre o espectador e o torcedor situam-se várias espécies de espectador e de aficionado. O espectador consome um espectáculo, o torcedor é elemento de uma cerimónia religiosa. Para o espectador, o jogo de futebol termina, ao fim dos noventa e alguns minutos regulamentares; para o torcedor o jogo tem vésperas e oitavário, pois que ele o assumiu como coisa sua. Para o espectador, o futebol é lazer; para o torcedor, o futebol é religião. Os milhares e milhares de crentes, que vão rezar a Fátima, assemelham-se aos milhões de torcedores que, em todo o mundo, vivem religiosamente o futebol-espectáculo.Segundo os teólogos, a palavra religião provém do latim religare. Pretendem assim afirmar que a religião liga-nos, pela caridade, a Deus e às outras criaturas. Também os torcedores das equipas de futebol mais representativas se sentem ligados à sua equipa, constelada de deuses e de mitos. Para eles, os jogos de futebol em que participam são, mutatis mutandis, a sua missa dominical, o culto da sua devoção. Para eles enfim, pelas suas equipas sentem-se ligados aos novos deuses e aos novos mitos: os clubes que o mundo aplaude e os artistas de qualidades invulgares para a prática de um desporto. E sentem-se em íntima unidade com os apaixonados do mesmo clube, com os que erguem, em extâse, a mesma bandeira. A humanidade, até o futebol o comprova, não pode viver sem ídolos. E o que são, se não ídolos, o Figo, o Zidane, o Raúl, o Ronaldo, o Roberto Carlos, o Rui Costa, etc., etc.? Escutei um dia a Helenio Herrera, era ele treinador do Clube de Futebol “Os Belenenses”, que o grande jogador provinha, quase sempre, de uma família pobre e de um contexto, humilde também, que lhe permitiram o desenvolvimento das qualidades inatas, em liberdade e em contacto permanente com dificuldades que era forçado a superar. Pelé, Maradona, Garrincha, Eusébio e outros mais exemplificam o que vem de afirmar-se. Assim convém aliás aos seres humanos de excepcional estatura física, intelectual, moral, política e desportiva. No quase nada, tiveram engenho e arte para criar o quase tudo! A sua história é uma história de prodígios... que deslumbram e excitam os torcedores!Estes são monoteístas. Um só Deus adoram e cultuam: o seu clube! Por ele, se alegram e sofrem: são naturalmente religiosos! Como eram também os Jogos da Grécia Antiga. Na Modernidade, a larga e cuidadosa informação que dela dispomos permite-nos adiantar que, sob o pontificado de Galileu e Descartes, Newton e Kant, o racionalismo deu relevo ao corpo-instrumento e olvidou o corpo como valor. A educação física nasceu, por este motivo, e acentuou a separação natureza-cultura. O desporto entendeu-se então como meio de educação física, ao lado do jogo e da ginástica, e ficou como actividade física até hoje, diante da indiferença e o desinteresse de muita gente responsável. Ora, o desporto (e como tal o futebol) não é só uma actividade física porque exige constância nas regras, preparação eficaz e procura incessante da performance e da vitória. Há, no futebol, ciência, técnica, adaptação, criatividade e ainda drama e por isso cultura que emerge da natureza. O futebol é hoje bioconsciência em constante evolução, pois que não cessam as condições que a permitem.É preciso, no desporto, ultrapassar esta ideia falsa de que a realidade é dupla e que pode cindir-se em dois domínios distintos: a matéria, específica da tecnociência e o espírito próprio da filosofia e da teologia. A realidade é uma só: ciência e filosofia são duas visões diferentes da mesma unidade concreta. Em tudo há um aspecto profano e um aspecto sagrado. No futebol acontece outro tanto. O futebol é ciência e religião: é ciência quando é predominantemente razão; é religião quando é predominantemente crença e fé. Mas a predominância quer da ciência, quer do sentimento, não esconde que há fé na ciência e razão no sentimento religioso. De facto, o futebol não se reduz ao conhecimento científico. Se assim fosse, não haveria tantos torcedores!
Manuel Sérgio
1 Comments:
Palavras para quê...!?
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